terça-feira, 6 de outubro de 2026

Os Capangas do vilão



Segunda-feira, 5 de outubro, o Brasil acordou mais triste, mais desesperado e menos confiante no futuro. Tudo por causa do resultado desastroso das eleições de 2026.

As eleições, que tinham como função principal escolher os integrantes para os cargos de deputado estadual, deputado federal, senador, governador e presidente, nos brindaram com um resultado bizarro após a apuração. O crescimento da extrema-direita não é nenhuma novidade, porém a escolha de personagens que não representam só a extrema-direita, mas representam uma ala criminosa da política brasileira — além de serem muitos deles condenados e outros notórios —, pessoas que não têm capacidade nenhuma para ocupar um cargo público, mas que, mesmo assim, foram eleitos com uma grande quantidade de votos.


Isso ligou um alerta nas pessoas que são, ou deveriam ser, responsáveis pela produção intelectual, acadêmica e formadora de opinião do país. Por quê? Se essas pessoas estão com essa mentalidade ou essa incapacidade de tomar uma decisão simples, que é escolher um membro do Poder Legislativo, a capacidade moral dessa pessoa é questionável. Se essa pessoa não consegue tomar decisões simples sobre determinadas coisas, como essas pessoas vão tomar decisões morais no dia a dia? Essa pessoa vota no criminoso confesso ou não, no abusador de criança ou não, no corrupto compulsivo; essa pessoa só pode compactuar com as ideias desse personagem.

Então, quando metade da população de um país que tem cerca de 217 milhões de pessoas vota nesse tipo de personagem, a gente precisa repensar o que está sendo ensinado nas escolas, o que está sendo veiculado dentro das famílias brasileiras, para que as pessoas percam de forma tão incisiva a noção de ética e moral. Verdade seja dita: essas pessoas sempre existiram, mas elas não conseguiam cooptar tantas pessoas do espectro mediano. Pois é impossível acreditar que metade da população tenha essa mentalidade cruel que tivemos nos principais expoentes da extrema-direita. O que acontece é que a maioria das pessoas é levada a pensar como coletivo, e assim sempre aconteceu na maioria das grandes tragédias da humanidade. Foi assim com a escravidão, foi assim com o nazismo, entre outras coisas.

O individualismo sempre foi uma das maiores características do ser humano, mas agora chegamos ao extremo, pois as atitudes pensando no individualismo estão prejudicando as próprias pessoas que tomam suas decisões. Isso é estranho, porque o ser humano está colocando a sua autopreservação em cheque somente para defender uma ideologia que já foi provado que não funciona e que não é boa para ninguém, nem para os próprios membros dessa ideologia.

No livro Assim Falava Zaratustra, de Friedrich Nietzsche — o filósofo alemão que corroborou essa visão ao analisar a psicologia das massas e o comportamento do rebanho —, ele fala sobre isso: sobre como as pessoas gostam de viver em grupos e apoiam o que acham certo enquanto aquilo as favorece; mas, quando o que é certo é contrário às suas convicções, o errado passa a ser o certo para elas. E é exatamente isso o que estamos vendo hoje em dia.

Bertolt Brecht, renomado dramaturgo e poeta alemão, também falava sobre essa alienação em suas obras, denunciando como o analfabetismo político e a cegueira ideológica levam o próprio povo a colaborar com a sua degradação e dominação.

No conto Feliz Ano Novo, do renomado escritor brasileiro Rubem Fonseca, podemos ver claramente essa mesma linha de reflexão: como pessoas que levam uma vida aparentemente comum podem ser pessoas extremamente cruéis e bárbaras na sua particularidade, ocultando uma perversidade sob a casca do cotidiano.

De fato, ninguém é tão perfeito quando olhamos de perto. Mas a autopreservação e também o senso de comunidade são coisas inerentes ao ser humano. Como as pessoas estão perdendo essa capacidade? Como estão deixando sentimentos como orgulho, inveja e intolerância tomar o lugar da empatia, da compaixão e até do próprio senso de autopreservação? Porque algumas ações são notoriamente ações em grupo que afetarão a todos, e um grupo da humanidade está praticando ações que vão prejudicar toda a humanidade. Isso é um contrassenso.

Um exemplo clássico disso são as mudanças climáticas: elas não afetam só as pessoas pobres; é claro que afetam mais, mas as pessoas ricas também sofrem com as mudanças climáticas. Todo mundo vai morrer, todo mundo vai sofrer com enchente, vendavais, mudanças bruscas do clima, esc escassez e o delicado aumento da temperatura. No final, estaremos todos juntos dentro desse avião no qual simplesmente estão escolhendo um cozinheiro para pilotar, estão tirando o piloto qualificado para colocar a pessoa que está fazendo a comida para pilotar o avião, porque acham que essa pessoa é mais qualificada do que o piloto de avião. Isso é um fenômeno estranho, mas muito recorrente hoje em dia.

As eleições brasileiras, na verdade, refletem o coeficiente cognitivo da população brasileira atual. Hoje é muito comum ver as pessoas falando que não gostam de estudar. Na verdade, essa questão das pessoas falarem que não gostam de estudar é o resultado de anos de propaganda feita por algumas pessoas que não deveriam fazer, mas mesmo assim faziam, dizendo que o estudo não servia para nada, que o ideal era ser jogador de futebol, cantor de rock, cantor de pagode, apresentador de TV, político, pastor; que essas profissões sim davam dinheiro, que professor não ganhava bem, que cientista não era respeitado. Foram anos se falando isso até que hoje em dia pegou.

Como se atribui à célebre máxima de propaganda de massa (frequentemente associada aos estudos da manipulação ideológica): "uma mentira contada várias vezes acaba se tornando verdade". E hoje podemos ver como as mentiras, utilizando a internet, são contadas milhões de vezes através dos algoritmos das big techs, tornando, então, essas mentiras verdades.

Quem deveria acordar e fazer o processo de cura da sociedade é a classe que sempre fez esse processo, que são as classes artísticas e a classe acadêmica. O problema é que, como nós temos metade ou mais da população corrompida por esse vírus da desinteligência, até mesmo essa classe foi altamente infectada por essas questões. Então, dentro da própria classe artística e acadêmica, há resistência de seus próprios membros.

Na verdade, isso é um fenômeno que precisa ser analisado: como pessoas pretas estão votando em candidatos racistas declarados? Como pessoas LGBTQIA+ estão votando em personagens historicamente homofóbicos e preconceituosos? Tendo uma distância maior, como pretos e pobres conseguem votar em políticos elitistas e que são declaradamente contra a função social do Estado, da qual eles estão diretamente precisando? Na verdade, a função social do Estado ajuda a todos: desde o pobre que pega o Bolsa Família até o milionário que pega o Plano Safra. Todos esses auxílios ou subsídios são subsídios do Estado. Então, quando você está pleiteando um Estado que não subsidia determinadas categorias ou setores da sociedade, está prejudicando a sociedade como um todo, seja a classe pobre como também a classe rica. Não dá para entender como as pessoas não percebem isso.

Todos os países do mundo que têm uma população com IDH mais alto e com uma indústria forte têm subsídios. Os países europeus que têm maior IDH são países que têm subsídios em várias áreas; os países asiáticos que hoje são considerados "tigres asiáticos" só cresceram por causa dos subsídios. Então, quando uma pessoa fala que isso é uma coisa ruim, é porque essa pessoa não tem nenhuma capacidade intelectual e entendimento do que está falando. Por incrível que pareça, não percebem como estão afetando não só a si mesmas, mas a outras pessoas, e às vezes pessoas ligadas a elas, como filhos e parentes.

Já que alguns homens estão se sentindo não representados por essa classe de políticos, e esses homens têm tendências violentas e agressivas com mulheres, e muitos desses políticos defendem esse tipo de comportamento; também temos as mulheres submissas que acham que é natural receber esse tipo de comportamento dos homens sem falar nada — o que faz criar essa classe de políticos que aceita isso —, podemos ter um retrocesso nos avanços da sociedade com relação ao tratamento com as mulheres, com as minorias e em termos de respeito aos direitos humanos, pelos quais muita gente lutou e morreu nos anos 60 para conseguir. A geração de hoje também está colocando tudo por terra por conta de uma ideologia e de uma falta de conhecimento, de uma forma de não querer conhecer.

Algumas empresas do mundo mesmo já sinalizam uma preocupação com relação à situação do Brasil economicamente. Isso é muito ruim para o Brasil, essa instabilidade política; não é bom para o cenário internacional que o país tenha a possibilidade de ter um governo ditatorial sendo estabelecido de uma forma democrática, como aconteceu com o governo nazista. Isso não é uma coisa que o mundo quer ver novamente. E, apesar de muitos desses políticos flertarem com o fascismo descaradamente, a população preta, indígena e LGBTQIA+ simplesmente aprova esse comportamento, votando em massa nesse tipo de político.

Porque a gente precisa entender que, se metade da população está votando nesse tipo de político, é porque dentro dessa votação há minorias, já que a elite não chega a 10% da população brasileira e os brancos com características europeias não chegam nem a 30%. Então, para que as pessoas tenham essa votação tão expressiva, nós temos pessoas dos grupos ditos pobres e minorias — que estão no outro espectro da linha da elite brasileira — votando nessas pessoas. Essa análise estatística é muito fácil de fazer, então tem alguma coisa errada acontecendo sob a linha do Equador.

É muito estranho ver um funkeiro, um rapper ou um gay se dizendo claramente de direita. Isso é como um judeu se autointitular nazista, ou uma gazela ficar do lado do leão para caçar outras gazelas, mesmo sabendo que, quando o leão estiver com fome, ele irá comê-la. Eu não sei se isso é uma incapacidade de se autoanalisar, uma falta de entendimento de pertencimento à classe social ou se é algum tipo de psicopatia que precisa ser analisada de forma clínica e científica.

A clínica precisa se debruçar sobre essa questão e analisar esse fenômeno de forma séria, porque a Organização Mundial da Saúde também precisa começar a pensar em como isso está funcionando. Pois nós estamos caminhando para um retrocesso mental de forma mundial, e talvez até irreversível, para que nos próximos anos cheguemos a uma situação onde o ser humano será incapaz de conviver em sociedade, talvez extinguindo a nossa própria sobrevivência, tudo com o aval de um grupo que está manipulando toda a mídia para serem escolhidos como os grandes líderes dentro dos países e do mundo.

E como essas pessoas conseguem cooptar tantos asseclas? No meu livro, denominado Capanga 23, eu falo sobre esse fenômeno do "capanga do vilão" (onde tem um filme animado chamado Igor que reflete sobre essa questão de como a pessoa se vê quando está auxiliando uma pessoa ruim, uma pessoa incapaz, e ela está ali do lado dela defendendo-a). É isso que a gente vê hoje no Brasil: capangas do vilão. Metade dos brasileiros hoje são capangas de um vilão sem nome, mas que todo mundo conhece.

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