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terça-feira, 22 de julho de 2014

5 DIAS NO RIO DE JANEIRO - VALDEMIR COSTA


A Máquina do Mundo 
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera
e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,
convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,
assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco o simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,
a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de
teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,
olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,
essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo
se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”
As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge
distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos
e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber
no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,
e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;
e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,
tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.
Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,
a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;
como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mão pensas.















terça-feira, 28 de agosto de 2012

SIGAM O CUPINZEIRO DE IDÉIAS





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sexta-feira, 27 de julho de 2012

APAIXONE-SE TODOS OS DIAS



Nem tão forte como o aço, mas nem tão fraca como o vidro.

A vida passa muito rápido, portanto vou te dar um conselho: se apaixone pelo maior número de coisas que for possível.
Se apaixone pelas derrotas, elas serão a razão para abrir a próxima porta, subir mais um degrau, procurar a solução para outro problema. 
                                                                                                              
Se apaixone por aquela música que você só ouviu uma vez, por aquela onda que quebrou perfeita na arrebentação ou a forma irreconhecível daquela nuvem depois de uma monção.
                                               
                                                     


Se apaixone pelo tempo solitário sentado no escuro, pelo o nome da namorada escrito com um prego na lateral escondida do muro.
Se apaixone pelo vento que toca o seu rosto à tarde num dia de outono, as palavras não ditas nos momentos certos e os silêncios excessivos nos momentos errados.
                                                     
                                                          
Se apaixone pelos sabores das uvas passas e  pelas  as praças nas cidades pequenas sempre com pessoas sentadas e conversando sobre suas vidas.
Se apaixone por tudo e por todos que dividirem esse tempo com você, não desperdice a capacidade mais latente do ser humano, que é capacidade inata de se apaixonar.
Se apaixone sem medo de sofrer, sofrer faz parte da arte de se apaixonar. Sofra mais e quanto for necessário para saber a extensão dessa imensa paixão.

                                        
Se apaixone por algo, esqueça e se apaixone novamente, não se canse de se apaixonar até os últimos dias de sua existência.
Se apaixone pelo momento, pelo instante, pelo passado, pelo acaso, pelo vazio, pelas manias, pelas tentativas, pelas vidas não vividas, pelas coisas perdidas e pelas achadas, mas esquecidas e nunca usadas.

                                                                                            
Se apaixone pela sorte, pelo azar e a vontade de ficar, que dá e passa, mas a ferida fica e arde como afita na boca ao morder uma laranja lima.
Se apaixone por um monte coisas na vida, mas ame apenas aquilo que não te aprisione, machuque ou humilhe. Amar é síntese da paixão, será impossível amar na mesma proporção em que deverá  se apaixonar, mas isso é o catalizador do amor à discrepância entre a infinita possibilidade de se apaixonar várias vezes e ao mesmo tempo e impossibilidade de amar mais de uma única coisa por vez. 
                         
Se apaixone muitas vezes e ame sempre que possível for. odeie por alguns instantes, depois volte a se apaixonar com mais força ainda. Quem nunca foi desprezado nunca se dará por inteiro. O calor torna o aço mais forte, molda o vidro em formas incrivelmente belas. O concreto e forte e flexível, assim deve ser o ato de se apaixonar constante como o piscar e natural como respirar.


                                                                                                     

Valdemir Costa